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A tarde que o Brasil jogou contra si mesmo

Luis Felipe Saccini
15 jun 2026 · 5 min · Colunista de Esporte
Brasil x Marrocos — A tarde que o Brasil jogou contra si mesmo
Ouça a matériaNarração em áudio · 6 min

A Copa do Mundo tem uma estranha capacidade de transformar um simples empate em um julgamento nacional. O Brasil deixou o gramado com um 1 a 1 diante de Marrocos na estreia do Mundial de 2026, e a sensação era de frustração. Não porque o resultado seja irreversível, mas porque a Seleção pareceu passar boa parte da partida lutando contra os próprios erros.

Os primeiros quinze minutos foram um aviso. Marrocos pressionava, trocava passes com confiança e fazia o Brasil correr atrás da bola. A Seleção parecia atrasada para a própria estreia. Depois, porém, os africanos reduziram o ritmo e a partida se abriu para os brasileiros. Não porque o Brasil tivesse assumido o controle absoluto do jogo, mas porque o adversário deixou de exercê-lo. Era o momento ideal para a equipe de Carlo Ancelotti crescer na partida.

Não cresceu.

O problema estava no coração do time. Casemiro e Lucas Paquetá tiveram atuações muito abaixo do esperado. Faltava fluidez na saída de bola, faltava criatividade na construção e faltava intensidade para transformar posse em perigo. O meio-campo brasileiro parecia um setor sem identidade, incapaz de ligar defesa e ataque ou de oferecer suporte consistente aos homens de frente.

O gol marroquino aos 22 minutos surgiu justamente desse cenário. Uma perda de bola evitável deu origem a uma enfiada espetacular entre os zagueiros brasileiros. Surpreendido pela velocidade da jogada, Alisson saiu do gol de forma precipitada e acabou facilitando a conclusão. Marrocos vencia sem precisar dominar a partida. Bastou aproveitar uma das brechas oferecidas pelo próprio Brasil.

Vinícius assume o protagonismo

Se o coletivo decepcionava, Vinícius Júnior decidiu assumir a responsabilidade individualmente. O camisa 7 foi quem mais tentou acelerar o jogo, romper linhas e desafiar a defesa adversária. Ainda existe espaço para evolução sem a bola, mas desta vez isso sequer foi um problema relevante. Douglas Santos fez uma atuação tão segura pelo lado esquerdo que a falta de cobertura defensiva do atacante praticamente não foi sentida.

E foi justamente dos pés de Vinícius que surgiu o alívio brasileiro. O gol de empate não apenas evitou uma derrota na estreia. Foi a confirmação de que, quando o restante da equipe parecia sem ideias, havia alguém disposto a assumir o protagonismo.

Ancelotti entre acertos e dúvidas

Se Vinícius foi a resposta dentro de campo, Carlo Ancelotti alternou acertos e erros no banco. O treinador percebeu rapidamente que a aposta em Ibañez não funcionava e também identificou que Casemiro atravessava uma tarde especialmente ruim. A entrada de Fabinho trouxe mais equilíbrio e devolveu alguma organização a uma equipe que parecia desconectada. Foi uma correção necessária e bem executada.

Mas nem todas as decisões tiveram a mesma clareza. A insistência em Raphinha começa a desafiar explicações lógicas. O atacante teve mais uma atuação apagada, pouco participou da construção das jogadas e raramente conseguiu desequilibrar. Ainda assim permaneceu em campo enquanto outras alternativas aguardavam sua oportunidade.

"O Brasil precisava de imaginação, presença na área e mais poder de finalização. Precisava de Endrick."

A decisão mais difícil de compreender veio justamente quando o Brasil precisava encontrar caminhos para a vitória. Bruno Guimarães deixou o gramado para a entrada de Danilo Santos. A substituição teve toda a aparência de uma troca motivada pelo desgaste físico do volante do Newcastle United. Se foi esse o raciocínio, ele é difícil de aceitar.

Se existe um momento para exigir alguns minutos extras de um dos seus melhores jogadores, esse momento é uma estreia de Copa do Mundo. Ainda mais quando a equipe busca o gol da vitória. A troca não trouxe ganho criativo, não aumentou a pressão ofensiva e tampouco mudou a dinâmica da partida. A substituição natural parecia evidente: Raphinha deveria ter deixado o campo, Endrick deveria ter entrado. Era a alteração que o contexto pedia, a arquibancada pedia e o próprio jogo pedia. Ela nunca aconteceu.

O retrato de uma tarde contraditória

Talvez ninguém represente melhor as contradições da atuação brasileira do que Igor Thiago. A cabeçada desperdiçada na pequena área, já no fim do primeiro tempo, é o tipo de lance que persegue atacantes por muito tempo. Em uma Copa do Mundo, oportunidades daquele tamanho não costumam aparecer duas vezes.

Mas seria injusto resumir sua atuação a esse erro. Durante grande parte da partida, Igor Thiago viveu isolado entre os defensores marroquinos. A bola simplesmente não chegava. O centroavante ficou refém de um meio-campo incapaz de abastecê-lo e quase se transformou no bode expiatório perfeito para uma produção ofensiva coletiva decepcionante. Enquanto as críticas se concentravam nele, Raphinha atravessava a partida praticamente invisível.

O resultado em si não compromete a classificação. O Brasil segue vivo, competitivo e com qualidade suficiente para crescer ao longo do torneio. Mas a estreia deixou perguntas que precisam ser respondidas rapidamente. Sobre a organização do meio-campo. Sobre insistências difíceis de justificar. E sobre a capacidade de transformar posse de bola em oportunidades reais.

A boa notícia é que Vinícius Júnior parece cada vez mais confortável no papel de protagonista. A má notícia é que uma seleção pentacampeã do mundo dificilmente pode depender apenas disso. Porque, ao final daquela tarde, a impressão não era de que Marrocos havia impedido a vitória brasileira. Era de que o próprio Brasil havia deixado a vitória escapar.

Luis Felipe Saccini
Colunista de Esporte · Rakero
Jornalista, colunista esportivo e especialista em conteúdo digital. Escreve sobre futebol, cultura esportiva e os personagens que fazem do esporte uma das maiores formas de contar histórias.
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